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Ensaio·21 de setembro de 2026·6 min de leitura

Risco Brasil: por que precisamos pagar tanto para convencer o investidor?

O risco-país representa a percepção do mercado sobre os riscos econômicos, fiscais e institucionais de investir em determinada economia. Quanto maior essa percepção, maior tende a ser o prêmio exigido pelos investidores, afetando juros, câmbio, crédito, bolsa e o custo de financiamento. Para o investidor, entender esse risco também evidencia a importância da diversificação geográfica e de avaliar o risco por trás da rentabilidade oferecida.

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Por que um país precisa pagar juros maiores do que outro para conseguir dinheiro emprestado?

A resposta passa por um conceito bastante conhecido no mercado financeiro, mas nem sempre bem compreendido pelo investidor: o risco-país.

Quando um investidor decide colocar dinheiro em outro país, ele não observa apenas a rentabilidade oferecida, mas também avalia as condições econômicas, fiscais e institucionais daquela economia e, principalmente, a capacidade de o governo honrar seus compromissos.

Logo, quanto maior a percepção de risco, maior tende a ser o retorno exigido pelo mercado para aceitar emprestar dinheiro.

Esse prêmio adicional não aparece apenas nos títulos públicos. Mudanças na percepção de risco de um país podem se espalhar pelo câmbio, juros, bolsa, crédito e pelo custo de financiamento das empresas.

Por isso, entender o risco-país ajuda a compreender uma parte importante da relação entre economia e investimentos.

O que é risco-país?

Risco-país é uma medida da percepção de risco associada a investir em determinada economia.

No caso dos títulos emitidos por governos, estamos falando principalmente do chamado risco soberano: o risco relacionado à capacidade e à disposição de um país de cumprir suas obrigações financeiras.

Em termos simples, a pergunta é:

Quanto retorno adicional um investidor exige para emprestar dinheiro a determinado país em vez de colocar seus recursos em um ativo considerado mais seguro?

Historicamente, os títulos do Tesouro dos Estados Unidos são utilizados como uma das principais referências para essa comparação.

Isso permite transformar algo relativamente abstrato, CONFIANÇA, em uma variável financeira observável: o prêmio (os juros) exigido pelos investidores.

Quanto maior o risco, maior deve ser o retorno?

Em princípio, sim, mas essa frase precisa ser interpretada corretamente. Observe o exemplo:

Imagine dois governos buscando financiamento no mercado internacional.

  • O primeiro pertence a uma economia considerada estável e previsível.
  • O segundo apresenta maior endividamento, incerteza fiscal ou instabilidade econômica, com insegurança jurídica e tributação elevada e complexa.

Se ambos oferecerem exatamente a mesma taxa de juros, por que um investidor escolheria assumir o risco adicional do segundo país?

Provavelmente não escolheria. Ou seja, para atrair capital, o país percebido como mais arriscado precisa oferecer uma remuneração adicional. O nome disso é prêmio de risco.

Se um título considerado referência paga 4% ao ano e o mercado exige mais 3 pontos percentuais para assumir determinado risco soberano, o título precisaria oferecer algo próximo de 7% ao ano para compensar essa diferença.

Os antigos indicadores EMBI utilizavam exatamente essa lógica: medir o spread dos títulos de países emergentes em relação aos títulos americanos. Cada 100 pontos-base correspondem a 1 ponto percentual.

Existe, porém, uma distinção importante:

Maior risco pode exigir maior retorno esperado. Isso não significa que o investidor necessariamente receberá maior retorno realizado.

O prêmio existe justamente porque há uma possibilidade maior de algo sair diferente do esperado, por exemplo, um CALOTE!

Como o risco-país é medido?

Não existe um único número capaz de resumir perfeitamente o risco de uma economia. Por isso, o mercado observa diferentes indicadores.

Durante muitos anos, uma das principais referências para países emergentes foi o EMBI+, criado pelo J.P. Morgan. No Brasil, o EMBI+Br comparava o prêmio dos títulos da dívida externa brasileira com títulos equivalentes do Tesouro americano.

A série brasileira tradicionalmente divulgada pelo Ipeadata deixou de ser atualizada em 2024. Por isso, embora o EMBI continue sendo importante para entender o conceito de spread soberano e existam outros índices da família EMBI utilizados internacionalmente, não é adequado tratar hoje o antigo EMBI+Br como se continuasse sendo a única medida corrente do Risco Brasil.

Outras referências passaram a ganhar ainda mais importância.

CDS: quanto custa o seguro contra um calote?

O Credit Default Swap, ou CDS, pode ser entendido de maneira simplificada como uma espécie de proteção contra um evento de crédito. Quem compra essa proteção paga um valor para obtê-la, o que chamamos de prêmio.

A lógica lembra a de um seguro: quanto maior o risco percebido, maior tende a ser o preço cobrado pela proteção.

Se aumenta a preocupação dos investidores com a capacidade de pagamento de determinado país, o custo dessa proteção tende a aumentar também.

Por isso, a cotação do CDS soberano é acompanhada como um termômetro da percepção de risco do mercado.

Quanto maior o CDS, em linhas gerais, maior o risco atribuído àquele emissor.

O que faz o risco de um país aumentar?

Não existe uma única variável. A percepção de risco resulta de uma combinação de fatores econômicos, fiscais, políticos, institucionais e externos.

Entre os elementos normalmente observados estão:

  • Política fiscal e trajetória da dívida pública;
  • Inflação;
  • Crescimento econômico;
  • Capacidade de geração de receitas;
  • Estabilidade institucional;
  • Condições da economia internacional;
  • Liquidez global;
  • Choques geopolíticos.

Mercados trabalham com expectativas. Não é necessário esperar que um problema efetivamente aconteça.

Se aumenta a probabilidade atribuída a determinado cenário negativo, o preço dos ativos pode começar a incorporar essa possibilidade antecipadamente.

O que acontece quando o risco-país aumenta?

O efeito mais direto está no custo do dinheiro.

Se os investidores passam a considerar um país mais arriscado, exigem maior remuneração para financiar seu governo e suas empresas.

Mas a transmissão não termina ali. Um aumento persistente da percepção de risco pode provocar redução da entrada de capital estrangeiro, aumento dos spreads de crédito, pressão sobre os juros, desvalorização da moeda local e maior custo de financiamento para empresas.

  • Na renda fixa, investidores passam a exigir prêmios maiores.
  • Na bolsa, empresas mais dependentes da economia doméstica ou de financiamento podem sofrer com aumento do custo de capital.
  • No câmbio, uma saída relevante de recursos pode aumentar a procura por moedas estrangeiras e pressionar a moeda doméstica.
  • No crédito, o custo de captação maior pode chegar posteriormente às empresas e às famílias por meio de financiamentos mais caros, podendo gerar aumento de falências, calotes e inadimplência.

É por isso que o chamado Risco Brasil não interessa apenas ao investidor estrangeiro. Ele pode acabar chegando ao bolso de quem nunca comprou uma ação ou um título público.

O que o risco-país tem a ver com sua carteira?

Provavelmente mais do que parece.

Afinal, um investidor que possui todo o patrimônio dentro de um único país não está exposto apenas ao risco de cada empresa, banco, fundo ou título que escolheu.

Ele também está exposto a um fator comum a praticamente todos eles: o próprio país.

É possível ter dez, vinte ou cinquenta investimentos diferentes e continuar carregando uma grande concentração geográfica.

Essa é uma das razões pelas quais diversificação não significa simplesmente aumentar o número de ativos da carteira.

É necessário observar também quais riscos esses ativos compartilham.

Investimentos internacionais podem reduzir a dependência de uma única economia, moeda e ambiente institucional.

Isso não elimina riscos. Apenas acrescenta fontes diferentes de retorno e risco ao patrimônio.

A diversificação geográfica, portanto, não deveria ser entendida simplesmente como uma aposta contra o Brasil, e sim como parte da gestão dos seus investimentos.

Lembre-se: o dinheiro não tem o mesmo preço em todos os lugares.

Países considerados mais previsíveis conseguem financiar suas atividades pagando menos, enquanto países percebidos como mais arriscados precisam oferecer juros maiores para convencer investidores a permanecer ou colocar recursos ali.

Para o investidor, compreender essa relação ajuda a olhar de maneira diferente para algumas perguntas aparentemente simples:

  • Por que determinados títulos pagam tanto?
  • Por que o dólar sobe justamente quando aumenta a incerteza?
  • Por que as taxas de juros futuras mudam antes mesmo de o Banco Central alterar a taxa Selic?
  • Por que empresas brasileiras podem sofrer mesmo quando seus negócios continuam funcionando normalmente?

Em muitos casos, parte da resposta passa pela mesma variável:

O preço que o mercado está exigindo para assumir o risco daquele país.

A rentabilidade nunca deveria ser observada isoladamente.

Antes de perguntar quanto um investimento pode render, vale entender qual risco está sendo assumido para que aquele retorno seja oferecido.

No mercado financeiro, retornos mais altos raramente aparecem sem uma contrapartida.

Adriano Barreto é planejador financeiro CFP®, consultor de investimentos e palestrante, com mais de 16 anos de experiência no mercado financeiro. Cantagalo - Paraná

Escrito por Adriano Barreto, CFP®.Revisado em 21 de setembro de 2026.
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