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Ensaio·13 de setembro de 2026·4 min de leitura

O problema das apostas online, bets e outros tipos de joguinhos!

Lembre-se: apostas não são investimentos O crescimento das bets não revela apenas uma mudança no entretenimento. Mostra também como parte dos brasileiros está tentando lidar com dinheiro, urgência e expectativa de futuro.

Capa editorial de planejamento patrimonial ilustrando o artigo O problema das apostas online, bets e outros tipos de joguinhos!.

Lembre-se: apostas não são investimentos.

O crescimento das bets não revela apenas uma mudança no entretenimento. Mostra também como parte dos brasileiros está tentando lidar com dinheiro, urgência e expectativa de futuro.

Quando se fala em apostas online, a discussão normalmente começa pelas perdas, o que faz todo sentido. Afinal, perder dinheiro é a consequência mais visível.

Mas um relatório recente da ANBIMA mostra que existe uma questão anterior e talvez ainda mais importante: por que tantas pessoas estão colocando a aposta dentro da própria vida financeira?

Segundo dados do Raio X do Investidor Brasileiro citados no estudo, 17% da população fizeram apostas online em 2025. Entre os apostadores, 39% disseram buscar ganhos rápidos, especialmente em momentos de necessidade. Outros 32% enxergam a prática como diversão.

O dado que mais chama atenção, porém, é outro: 20% mencionam a aposta como uma forma de investimento.

Isso diz bastante sobre a maneira como estamos lidando com dinheiro. Nesse caso, a aposta deixa de ser apenas diversão e passa a ser vista como uma forma de melhorar de vida, criar riqueza ou gerar dinheiro para pagar as contas.

Nem todo mundo que aposta tem um problema com jogo. Para algumas pessoas, a aposta entra como uma despesa de lazer. Existe um valor definido, aquele dinheiro não faz falta no orçamento e o objetivo principal é entretenimento.

O relatório da ANBIMA encontrou situações em que a aposta aparece como tentativa de complementar renda, pagar despesas, recuperar perdas ou encontrar uma saída rápida para dificuldades financeiras.

É aqui que a coisa fica complicada.

Ela deixa de competir apenas com outras formas de lazer e começa a disputar espaço com questões financeiras sérias, como reserva financeira, pagamento de contas, construção de patrimônio e outros objetivos.

E isso é particularmente relevante em períodos de aperto. Se existe pouca margem no orçamento, um resultado rápido pode parecer muito mais atraente do que uma solução que exige meses ou anos.

O problema de tentar recuperar

Um dos pontos mais interessantes do estudo é a trajetória de quem passa a apostar com maior frequência.

A pessoa começa por curiosidade, influência de amigos, entretenimento ou expectativa de ganho.

Depois vêm as primeiras perdas, e aí aparece uma ideia perigosa:

"Vou apostar mais uma vez para recuperar."

Esse raciocínio pode iniciar um ciclo muito perigoso.

Perde. Tenta recuperar. Aposta novamente. Tenta parar. Surge uma nova oportunidade, um bônus, uma notificação, uma partida ou algum estímulo da plataforma e a pessoa volta.

O maior risco talvez não esteja em uma perda isolada.

O que já era ruim pode ficar muito pior.

A linguagem também confunde

Outro ponto levantado pela pesquisa merece atenção.

Entre alguns apostadores aparecem expressões como estratégia, retorno, rendimento, estatística, método e gestão de banca.

São palavras conhecidas de quem acompanha o mercado financeiro.

Essa aproximação de linguagem pode reforçar a sensação de que existe uma semelhança entre investir e apostar. Pode até ser um jeito mais sofisticado de se enganar.

Mas existe uma diferença importante.

Um investimento faz parte de uma estrutura financeira mais ampla, onde existem:

  • objetivo;
  • prazo;
  • liquidez;
  • risco;
  • diversificação;
  • expectativa de retorno compatível com aquela estratégia.

Uma aposta não se transforma em investimento porque recebeu método, planilha ou uma linguagem mais sofisticada.

O ambiente digital também importa

Seria confortável atribuir tudo à falta de disciplina, mas, sejamos sinceros, seria uma explicação incompleta.

O relatório mostra que as plataformas de apostas fazem parte de um ambiente digital desenhado para reduzir atritos. Tudo acontece rápido.

Notificações, bônus, resultados, novas possibilidades de aposta e poucos momentos claros de interrupção.

Quanto menor o intervalo entre uma decisão e outra, menor também pode ser o tempo usado para pensar.

E isso importa porque decisões financeiras raramente são tomadas apenas com uma calculadora na mão.

Elas também envolvem ansiedade, esperança, medo, frustração, urgência e sensação de controle.

É exatamente por isso que falar sobre educação financeira apenas como transmissão de conhecimento técnico pode ser insuficiente.

Uma pessoa pode saber que a probabilidade está contra ela e continuar apostando.

Pode saber que deveria economizar e não conseguir.

Pode compreender juros compostos e, ainda assim, procurar uma solução imediata para uma conta que vence amanhã.

Recuperar o controle é mais importante do que recuperar o dinheiro

Quando alguém percebe que a aposta está ocupando espaço demais na sua vida, uma das primeiras decisões deveria ser abandonar a ideia de recuperar todo o prejuízo através de novas apostas.

O dinheiro perdido já faz parte do passado.

A prioridade passa a ser impedir que aquela perda produza outras.

O próprio estudo identifica medidas adotadas por pessoas que conseguiram reduzir sua exposição:

  • remover aplicativos;
  • bloquear contas;
  • limitar meios de pagamento;
  • diminuir o contato com ambientes que funcionam como gatilho.

Em alguns casos, conversar com alguém de confiança também pode fazer diferença.

Vergonha e silêncio tendem a tornar um problema financeiro ainda mais difícil de administrar.

Quando necessário, ajuda profissional também deve entrar nessa equação.

Talvez as bets estejam mostrando algo maior

A expansão das apostas online não fala apenas sobre jogo.

Ela também fala sobre expectativas, sobre pessoas procurando melhorar de vida, famílias pressionadas pelo orçamento e sobre o nosso habitual desejo de obter um resultado rápido quando o caminho tradicional parece lento demais.

Não existem soluções simples para isso.

Estamos falando da relação das pessoas com o dinheiro, e compreender melhor essa relação é um dos primeiros passos para construir decisões melhores.

Fonte

ANBIMA. Aposta online no Brasil: perfis de uso, jornadas e padrões de comportamento. Junho de 2026.

O estudo analisa perfis, motivações, jornadas e a relação das apostas online com comportamento e decisões financeiras.


Adriano Barreto é planejador financeiro CFP®, consultor de investimentos e palestrante, com mais de 16 anos de atuação no mercado financeiro. Está em Cantagalo, no Paraná, e atende clientes presencialmente e online em todo o Brasil.

Referências

Escrito por Adriano Barreto, CFP®.Revisado em 13 de setembro de 2026.
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